---Houve uma época em que tive uma tartaruga. Na verdade, era um cágado e deveria ter cerca de cinco centímetros... Uma graça! Chamei-a de Duda, pois não sabia ser uma fêmea, ou um macho, ninguém nunca me ensinou com descobrir o sexo das tartarugas. Eu costumava vê-la andar pelos cantinhos da casa, para se exercitar... O problema era que ela não era lá muito saudável. Eu desconfio que minha mãe já a tivesse comprado com algumas complicações na saúde. Bom, Duda viveu por duas semanas ao meu lado, quando - por fim - faleceu. Você deve estar se perguntando o porquê de eu contar esse fato tão distinto. Quero dizer, não é realmente coisa que se lê por aí “Tive uma tartaruga certa vez, mas ela morreu. Fim”.
--- O objetivo disso tudo era dar um apanhado, ainda que geral, por toda a minha história com animais, que não é pouca: desde os cinco queria ter para mim um bicho (qualquer bicho!). Tive desde pequenos tatuzinhos-bola de jardins - que mantinha em vidros de maionese cheios de terra - até um gato que seqüestrei uma vez. Este, talvez, tenha sido o meu bicho mais efêmero. O tive por cerca de duas horas, até ser descoberta por meus pais, que me obrigaram a soltá-lo em um clube cheio de gatos. Não! Espere... Lembro-me que tive uma lagartixa por cerca de quinze minutos...
--- Certo. Foi um bom apanhado geral. Acho que já posso explicar a razão desse texto. Minha ânsia por bichinhos é gigantesca e eu gostaria de tê-los todos. Acho que tenho um grande coração...
--- Agora, vamos ao que interessa, que o tempo é curto e tem coisa à beça para contar: Certo dia, saindo à esmo pela cidade, avistei uma feira - dessas muitas que tem por aí - bem no meio da praça. Era domingo e eu não tinha absolutamente nada para fazer. Entrei na feira. Era bem chatinha, essas coisas de comércio, sabe? Andei, andei... E propagandas de hotel para cá, de padarias para lá... “Como dirigir seu próprio negócio logo aqui”, e coisas assim. Até que me deparei com um estande onde estavam muitos peixes e plantas, e este me aparentou ser o melhor estande de todos! Foi só me aproximar que um simpático e ocupadíssimo senhor me veio com um pote mínimo, contendo um minúsculo peixe laranja. Lindo! Saí de lá com um sorriso qualquer de absoluta estupidez. Andava com o pote como se este fosse um troféu. Segurava-o com todo o carinho do mundo para não cair, ou virar. Astrúbal. Era um nome bem pesado para um peixe tão pequeno, mas vá lá. Era “o” Astrúbal.
--- Desde esse momento até algum tempo depois, o Astrúbal foi o meu bichinho. Devo dizer que talvez ele não gostasse muito da situação. Tentara se suicidar por duas vezes e numa delas, quase que se foi definitivamente pro esgoto. Mas eu o adorava. Mesmo com seus olhos esbugalhados como os de um sapo, eu o achava lindo.
--- Dessa forma Astrúbal viveu: em um aquário improvisado, porém feliz. Num cantinho só para ele. E foi assim, por cerca de dois meses e alguns dias. Ah, o Astrúbal! Ninguém soube me explicar muito bem o que aconteceu. Eu não estava na cidade, tinha ido ver um show imperdível no grande “Rio de Janeiro”. O peixinho ficou aos cuidados da família. Disseram-me que bem no dia em que fui viajar, ele esteve muito agitado, nadando tão euforicamente que o aquário onde vivia parecia não ter suficiente espaço.
--- Pode ter sido saudade, como saber? Lá estava o pobrezinho : louco de saudades minhas. Querendo saber se voltaria um dia para dar-lhe comida, ou somente aparecer e sorrir. Mas ouvi falar certa vez, que peixes têm muitos problemas cardíacos. Pode ter sido isso, não sei... Talvez ele tenha enfartado de forma muito grande para aquele corpinho tão minúsculo. Não dá bem pra saber, peixes são criaturas muitíssimo misteriosas.
--- Eu fiquei fora somente dois dias. Quando voltei, não tinha mais Astrúbal. Foi tão triste ver o aquário vazio e sem nenhum movimento alaranjado...
--- Então, Astrúbal, onde quer que você esteja, espero que esteja bem. No céu dos peixes pequenos e desfrutando sua liberdade. Não te esquecerei. E mando saudações: Saudações, até.