---Em meu quarto, o tempo psicologicamente parou noite passada. Do lado de fora da janela embassada, a noite era já alta e passava cruelmente. Ela dizia que logo viria o dia e, com ele, todo o vazio e falta. Ela dizia que a repeticão traz a loucura, mas que nem mesmo a loucura tem ímpetos de visitar o inferno. E, aos que possuem o inferno, somente resta o fogo.
--- Ontem o tempo parou em meu quarto, pois os minutos não seriam suficientes para conter a linha temporal que passou por minha cabeca. Dizem que quando alguém está para morrer, toda a vida lhe passa diante dos olhos. Mas ontem eu não estava para morrer. Antes fosse isso, pois ao menos seria um fim. Mas tudo o que restou foi a queda, e eu vi desmoronar, de pouco em vez, todos os significados de outrora. Foi um cair continuo que será eterno, ainda que somente na memória.
*** Eu queria poder não distribuir pedacos de alma. Eu queria não perder a mim mesma todas as vezes que o mundo cai. E eu queria que o tempo não tivesse parado, porque seria mais fácil passar por horas do que encarar a atemporalidade da dor. ***
---Quando os significados foram embora, eu nunca pensei que a consequência final seria ter a mim mesma levada com eles. Se eu soubesse que chegaria o tempo em que nada em mim restaria -a não ser o desejo de ser-, talvez eu não me daria ao mundo e passaria as tardes sozinha. E, com o costume, a solidão não seria assim tão ruim - se houvesse chá e bolos da baunilha com acúcar. (eu bem gostaria de viver alguns tempos em baunilha e acúcar... ) .
Se eu soubesse à tempo, talvez houvesse solucão.
---Ontem eu pedi para o ter arrancado e, conforme apaguei a luz, senti o peso de todos os meus demônios. Eles são seres rastejantes e nojentos e eu os teria longe de bom grado. E seria fácil ignorá-los por horas, digo ainda outra vez, se o tempo não tivesse parado. Mas com a atemporalidade e sede e fome, aquele último escape assume um quê de convite.
---Eu sempre soube que quando chegasse o dia em que as minhas definicões e contornos sumissem, eu seria destruída, eu sempre soube. E ontem, com o tempo parado, sussuros demoníacos por companhia e caneta e papel em branco - no espaco do desespero -, eu tive certeza. Agora que eles se foram, foi-se também a razão de ser. A falta me destruíria. Será que ela já o fez?
---E eu ainda me pergunto se foi muita pretencão falar do inferno.